Ao retomar os fatos históricos sobre a demarcação da divisa entre Mato Grosso e Pará, faixa que se encontra em litígio e processo jurídico para a revisão de 22 mil km² delimitado de forma equivocada, surge na memória a figura de Rondon.
Dedicando a maior parte de sua vida para a elaboração das primeiras cartas geográficas brasileiras, Mal. Cândido Rondon percorreu cerca de 500 mil km², entre os sertões, cerrados, pantanal, florestas e fronteiras do Brasil.
Conhecido como patrono das Comunicações no Brasil, indigenista e pacificador, o Mal. Rondon, mato-grossense de Mimoso, viveu quase um século (de 1865 a 1958), a maioria em missões de desbravamento e de pesquisas científicas.
O que a maioria dos brasileiros talvez não saiba, bem como a nova geração, é sobre o reconhecimento internacional e a repercussão da obra científica de Rondon.
Cândido Rondon estudou no Liceu Cuiabano e aos sete anos foi para o Rio de Janeiro, em 1874, onde entrou na Escola Militar, formando-se em Matemática e em Ciências Físicas Naturais. Trabalhou no Laboratório Astronômico até ser destacado, em 1889, para a implantação das linhas telegráficas em Mato Grosso, Goiás e Amazonas.
Durante suas missões pelo Exército Brasileiro para a implantação de linhas telegráficas, também coordenou missões científicas, revelando aos brasileiros e ao mundo estudos sobre a botânica, geografia, antropologia, cartografia, zoologia e riquezas minerais.
A expedição científica Roosevelt/Rondon, entre 1913 e 1914, consolidou o nome de Rondon junto à comunidade científica estrangeira. Ex-presidente dos Estados Unidos, na época, Theodore Roosevelt, então membro da Sociedade Geográfica Americana, concedeu o Prêmio Livingstone a Rondon pelas obras e estudos. Pela importância do conjunto de trabalhos, Roosevelt equiparou e incluiu o mato-grossense ao grupo de quatro grandes exploradores dos tempos: Amundensen e Peary (descobridores do Polo Norte e Polo Sul), Charcot e Byrd (exploradores que se aprofundaram nas terras ártica e antártica). O nome de Rondon foi incluso na placa de ouro, na Sociedade Geográfica Americana, em Nova Iorque, ao lado daqueles exploradores.
Em 1917, foi convocado pelo governador Bispo Dom Aquino Correa para desenvolver o trabalho cartográfico sobre a demarcação da divisa do estado, inclusive pelo Tratado de 1900 entre Mato Grosso e Pará.
A repercussão também se deu com suas obras indigenistas e seu trabalho como primeiro diretor do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Suas pesquisas exploratórias corrigem informações cartográficas e de navegabilidade de muitos rios. O próprio Rondon sempre fez questão de reconhecer e agradecer a contribuição dos indígenas. Optou pelo pacifismo e não agressão, mantendo várias aldeias de diversas etnias sob sua proteção.
Entre 1927 e 1930, fez a demarcação das fronteiras brasileiras com Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Guianas, realizando estudos sobre as condições de povoamento e segurança das fronteiras.
Pelo reconhecimento de seus trabalhos cartográficos, foi convidado para ser o mediador na demarcação de divisas entre Peru e Colômbia, conhecido como Tratado de Letícia, evitando um conflito diplomático que poderia, na época, chegar a guerra entre os países envolvidos.
Após esses trabalhos de definição das fronteiras dos países sul-americanos, estudiosos consideram um marco divisório inquestionável de seu reconhecimento como cartógrafo. Mesmo utilizando-se de equipamentos da época, como o teodolito e sextante, especialistas de hoje confirmam que o trabalho minucioso e detalhista de Rondon foi com grande precisão. Hoje, utilizando-se de toda a tecnologia e instrumentação avançada não se encontram diferenças consideráveis nas medições e delimitações.
As fronteiras demarcadas por Rondon tiveram reconhecimento de todos os governos, de forma pacífica, não gerando conflitos entre os países ou questões de relações diplomáticas por questões de fronteira.
Também é importante lembrar que Rondon foi indicado por 15 países para o Prêmio Nobel da Paz, em 1957.
A biografia e os trabalhos são extensos. O acervo histórico de fotos, documentários cinematográficos, objetos e instrumentos estão distribuídos em oito lugares do Brasil. Nos Estados Unidos, no Museu Americano de História Natural e na Sociedade Geográfica Americana, em Nova Iorque e na Biblioteca do Congresso Nacional, em Washington.
Além de todo o reconhecimento científico e de trabalho, Rondon é destacado pelo seu caráter, senso humanitário, respeito aos homens. Quando estudante participou do movimento abolicionista e republicano. Aluno de Benjamin Constant seguiu a corrente positivista.
Com o ouro que recebeu em um dos 30 prêmios nacionais e internacionais ganhos por seu trabalho, Rondon custeou a construção de uma escola em Mimoso, no lugar onde havia sua moradia de infância. Acima de tudo, era reconhecido pela simplicidade, humildade e desapego material.